- Cortem a cabeça dele – disse o rei enfurecido.
E lá se foi mais um conselheiro. Quatro deles, para ser mais
preciso. Desde que Jones, conselheiro do rei Harrison, (sobrevivente a mais de
vinte anos) passou dessa para a melhor (por livre e espontânea vontade dos
deuses e sem qualquer influência dessa terra), o rei perdera toda a paciência.
Mesmo com um reino inteiro para governar, a vida parecia um tanto
monótona para o velho rei, que agora só conseguia admirar a própria coroa por
horas a fio. Jones sempre encontrava maneiras de alegrá-lo e o fazia sem
esforço algum. “Era uma questão pura de ideiais em comum”, como o rei mesmo
gostava de lembrar.
De fato, talvez a explicação servisse para vários momentos que o
sucederam e enquanto cabeças rolavam a tensão sobre o reino aumentava.
O rei, é claro, não podia notar os burburinhos que se espalhavam
ou as finanças que pioravam sem a ajuda de um conselheiro. Logo, teriam que lhe
arrumar outro e esperar pelo desagradável fim.
Como já previsto, ainda na mesma tarde, o rei deu a ordem. Teriam
que encontrar alguém parecido com Jones, mas não sabiam como. Não tinham o
menor conhecimento sobre o que o rei e o antigo conselheiro conversavam antes.
Quem sabe seria mais fácil arrumar um homem sem família, pelo menos não faria
tanta falta da próxima vez em que o rei se irritasse.
E assim fizeram. Um homem sem família alguma. O destino já havia
sido cruel o bastante levando-lhe os filhos e a esposa por causa da pneumonia,
anos antes. Smith era seu nome e seria apresentado ao rei no dia seguinte.
Apesar de não pertencer a nobreza, Smith era inteligente e
paciente. Quando chegou a hora, falou ao rei como se carregasse também um
título e fez com que Harrison o aceitasse.
Nas semanas seguintes, surpreendeu. Não foi esnobe, apenas firme.
Não esperou ser chamado, avisou quando necessário. E, se permitiu sorrir vez ou
outra ninguém sabe porquê.
Smith acompanhava Harrison mesmo quando o rei estava recluso. Dois
meses depois o reino voltou a estabilizar e os comentários ruins desapareceram
dando lugar a festas repentinas.
Os guardas então descobriram o que o rei esperava de um
conselheiro: a sua amizade. Às vezes reis acabam com súditos, chefes com
carreiras ou políticos com a saúde e educação... Pessoas solitárias tendem a se
tornar mesquinhas.